17.3.09

Talvez, ainda...

Eu sento-me aqui, enquanto famílias se desestruturam e fazem as pazes ao bater de portas, aos berros que reverberam no vão oco do prédio velho. Existe um jornal que não leio ainda embalado em um plástico fino azul, um televisor com 120 canais que não ouso ligar, peixes em uma água turva e um gato preguiçoso que não responde aos movimentos das carpas, ao bater de asas dos pombos, um gato que talvez esteja precisando de uma consulta veterinária que esse mês não consigo pagar.

Hoje andei por uma praça. Muitas folhas secas e uma poça que fazia levantar um cheiro dos meus cinco ou seis anos. Sentei-me por ali enquanto pessoas eram demitidas, corriam para entrevistas ou preservavam seus atuais ofícios, atrasadas, engarrafadas em um tráfego lentíssimo e fumacento. Eu queria ter sido patinador do Carrefour quando tinha cinco anos. Médico de bicho, jogador de futebol. Alternativas todas inviabilizadas pelas conversas do meu pai e seu método maluco de dissuasão. Melhor assim, imagino.

Meu telefone tocou e conversei por minutos em um tom de voz claro e forte dizendo coisas que para quem passava na rua deveriam parecer bastante importantes. Mas não eram, não. Apoio as costas no encosto de madeira do banco. Cortam grama e esse é um cheiro dos meus dezesseis anos. Aos meus dezesseis anos eu queria ser escritor e, talvez, ainda...