15.11.07

Raso

Se me olhares por dentro, cavoucar meu miolo, encontrará apenas a massa pragmática que me recheia. Não sou respeitado pelo o que, provavelmente, esteja escondendo. Sou o que vê, essa pessoa coadjuvante da sua, e o que não entender, te explico.

A profundidade do meu olhar é do tamanho de sua curiosidade, por isso poupe seu tempo. Não tenho mistério, sou incompetente pra isso. Transbordo-me e volto a encher perenemente o pires raso que minha alma é.

Sou feliz.

17.9.07

Você Chegou

O que te levou a aparecer assim, justo agora, finalmente, como se estivéssemos atrasados para nosso encontro na vida? Eu não sou ator. Só um dia fui saci numa peça cuidadosamente arranjada pela professora primária, experiência muda e envergonhada que me rendeu não mais que um beijo de minha mãe e risadinhas ácidas de minha irmã mais nova. Portanto, é com muita desconfiança que esquematizo aqui comigo uma certa indiferença, como se não fosse verdade o fato de minhas saídas noturnas já terem movimentado talvez milhares de reais, quitados à vista, mas ainda lembrados por um fígado bastante experiente em sua função. Como se o cigarro impregnado nas calças jeans e camisetas não tivesse fedido, e o cheiro também infiltrado minhas narinas, meus pensamentos amuados.

Essas poucas habilidades cênicas foram utilizadas algumas outras vezes, em tempos de sua falta e minha procura desesperançosa. Cheguei a brigar com você. Fechei os olhos, resolvi imaginar seu rosto, tão imaculado e instigante como agora se comprova, franjas, lábios inquietos, coradinha, e para ele disse os maiores impropérios. Onde, entre todas as coincidências do mundo, você estava? Fiquei muito triste e achei que algo devia estar errado por naquele ínterim já ter havido guerra, paz, terremoto, pela temperatura ter sido a maior dos últimos trinta anos, um nadador ganhar sete medalhas de ouro sozinho e nada de você aparecer. Olhei para o espelho, espremi a vista fixando-a num ponto e disse..."tchau".

Depois, claro, desculpei-me e logo voltei a fazer as coisas que deixavam a esperança mais honrosa. Exercícios semanais eram necessários, supunha. Frequentava a academia. Montava os pesos e repetia os movimentos com profunda concentração, afinal, não estava lá para fazer amizades, muito menos para me inteirar dos acontecimentos futebolísticos. Às vezes me surpreendia passando os olhos em anúncios de escola de dança. E se for dançarina, pensava, de pernas torneadas, e se gostar de MPB? Li a biografia do Caetano.

Já sabia fazer macarrão carbonara, já tinha trocado o som do carro e instalado trava automática. Andava saindo com uma ou outra mulher, todas sparrings de você, quando fui àquela festa. Festa de artista, como as pessoas que estavam lá todas diziam que eram, e eu de calça, camisa e cinto combinando com o sapato. Deve ser assim, não é? Sempre. Quando você menos espera. Porque a roupa para te encontrar estava lá em casa e eu não tinha passado perfume. Bom...mas você veio com os lábios inquietos, a franja e agora dizemos “te amo” um para o outro sem nenhuma precaução. Mesmo você não sabendo dançar e sendo intolerante a leite, não ligar para exercício e só conhecer “Leãozinho”. Mesmo assim.

Eu, que tenho um pouco de medo que acabe, às vezes seguro, seguro, e depois solto um “eu também” murcho achando que posso botar minhoca na sua cabeça. “Ela vai pensar que eu estou pensando que ela pensou”...enfim, essas coisas de quem ama mais do que o psicólogo aconselha. O importante é que você chegou.

10.7.07

Noite de Domingo

A noite é um monstro enorme, negro com a mandíbula distendida para abocanhar o mundo. Sua língua, extensões de cimento úmido, abraça já a todos e desemboca aqui, na frente de casa. Afasto de leve o pano da cortina. Pela frincha se vê os dois halos incandescentes, dois postes no fim da rua fazendo tilintar a viscosidade suja da manta de água ante a escuridão de uma infinidade de lâmpadas apagadas. Ele olha pra mim. Uma goteira incessante e irregular tira minha atenção, um segundo, sim, sete segundos, não. Como fosse muito velho ou criancinha, algo não me deixa largar o tecido por completo. Seguro com as pontas dos dedos uma das extremidades da cortina e checo mais algumas vezes a presença eterna da noite de domingo, aqueles olhos esbugalhados que me deixam muito triste, aquela desolação inefável para a qual telefonema e abraços não são de nenhuma utilidade.

Estão lá, ainda. A ponta da língua serpenteando meu bairro, enrolando-me como presa passiva e convencendo-me vencido.

18.4.07

Apagada

Já de tudo falaram um pouco
E pouco a pouco, tornam a repetir
Restamo-nos, nisso, mudos intelectuais
Presos à obviedade que nada vale ser comentada

Já esgarçaram o que há pra ser sentido
Por darem-lhe cara, cadência e estilo
E hoje nossa essência embate na ponta
dura da epiderme
Sendo corpo e alma
Que se não me engano já foi nome de novela
Quase a mesma fatídica e involuntária coisa

Já no ápice da letargia
Uma lágrima quase seca, quase nada
Escorrega pelos cílios e na ponta
pára
Arrependida

Já de nada mais vale, como valia
Queimaram o fuzível da última vontade
E com ela se foi a vida
Apagada.

Thiago Cunha

17.4.07

Cigarra

Intumescia-se de bonitos pensamentos, todos que viriam a sair pela respiração, ao dormir, sem propagar um único som. O sincero desejo de um dia voar, voar até sumir, era um paradoxo entre a aura de aniversariante de festa surpresa que a envolvia.

A vida era mesmo uma chatice, e de perene havia somente a certeza de sua singularidade. Por onde passava apontavam suas asas, que por nunca terem sido abertas, eram apenas um grande par de vontade misteriosa.

Até o dia que a menina mais bonita, cigarra entre as formigas, desapareceu para que pudesse se encontrar. E realmente o fez, ensimesmada como era e, de tanto ficar sozinha, do nada ser tão grande para tudo onde olhava, a menina soltou a primeira palavra.

E o som da cigarra viajou com o vento, ecoado pela coincidência das brisas quentes e frias, pra virar poema e fazer chorar as formigas apaixonadas.

8.4.07

Quotes

Amor

"Devemos preservar o amor no comedimento de seu usufruto".


Amizade

"Que na cumplicidade do amor ou da amizade, tudo tenha de ser discutido e comprovado, para que existam, sempre, num abraço recíproco de alívio."


Gênios

"Não há mérito no grande feito. Seu responsável mal o percebeu, tamanha febre passional que o acomedia. E se antes já vivíamos, agora, somente com essa diferença, sobreviveremos."


Escolha

"Não me deixe escolha para que possa, cego, superar-me. Peço que o faça, antes que me consuma o estudo das possibilidades. E que também muitos dos pequenos arbítrios invadam meus dias, fundindo-se em relevância com as grandes decisões da vida, para que sua engrenagem trabalhe silenciosa."


Vontade

"A descoberta da vontade pode ser confundida, propositadamente ou não, com o consentimento de um fardo. "

Avião




Sumir com uma cidade

pra dilatar a outra

Avião


Breu chamuscado de luz

Viagem aérea

Na escuridão.

17.3.07

Placebo

Existem estudiosos do placebo, e a gente fica sem saber se para a profissão é preciso entender de farinha ou psicologia. Se procurar no dicionário etimológico, vai estar lá: da primeira pessoa do singular no futuro do indicativo do verbo latino placere, significando literalmente "agradarei"). Agradarei. Realmente, encherá de orgulho os instrutores de cursos budistas de três meses de duração, os defensores da homeopatia, e todos os ex-mendigos e hoje palestrantes milionários daquele filme que toda mãe comprou, e que levam para piscina na versão impressa.

Mas para os médicos, imagina. Uma pessoa, excetuando os “quase-virgens” ou muito ricos, passa uns dois anos no cursinho para ingressar em uma faculdade. Lá fica mais cinco, envolto em livros de capa dura antiquíssimos, já que a seleção natural, depois que o macaco percebeu que a semente brota e a ovelha é boazinha, anda bem devagar e nosso corpo tem pêlo e dente do siso há uns noventa e dois mil e oito anos.

E agora, basta abrir uma revista e se confundir inteiro com a terminologia: stress. O stress, se dermos uma olhada no dicionário inglês-português, significa: pressão, cansaço, frisar, dar ênfase, acentuar. (Esse meu dicionário eu comprei por cinco reais na banca. Qualquer um com mais de 200 verbetes diria fadiga, cançasso, nervosismo.) E ele, segundo os estudos mais recentes, é a causa maior de várias doenças. Ataque do coração? Stress. Caimbra? Stress. Queda de cabelo? Já sabe. O que me surpeende é que nem as instituições de ensino, nem os laboratórios farmacêuticos se adaptaram a era da mistificação terapêutica.

Eu, se fosse médico, iria me especializar em stress e, se dono de um laboratório, fabricaria caixas com design arrojado, pílulas que brilhassem no escuro e que carregassem, dentro de todos os elementos descritos na embalagem, princípio ativo nenhum. Seu nome: Stress Free. Sua promessa: Pode pegar o trânsito que quiser, pode deixar sua filha ir para o Funk, sua mulher sair com seu cartão.

Parece brincadeira, mas partindo da premissa que placebo é remédio para quase tudo e stress é a causa de uma doença nova por mês, talvez estejamos perto da salvação mais barata do planeta. O stress é renda vitalícia para a indústria da saúde. Uma consulta a um dermatologista de vanguarda pode me ajudar a ilustrar:

- Esse remédio não funciona. Meu cabelo continua caindo.
- Mas é claro. Você tem que acreditar no tratamento.
- Acreditar? Uma caixa desse negócio custa R$ 150,00. Eu acredito nele.
- Como você está no trabalho?
-...Bem, eu acho.
- As coisas estão difíceis? Porque isso é verdade. Se você passar o dia inteiro se convencendo de que está careca, talvez fique. Pense positivo.
- Eu não suspeitava que iria ficar careca até meu cachorro mudar de casa, e eu perceber que era meu cabelo no sofá, pia, travesseiro. Fui checar no espelho e já estava com essa entrada. Ela já estava lá.
- Está vendo. Você está nervoso.
- Claro, eu estou ficando careca. O meu nervosismo é quase todo medo de calvicie. Eu vou melhorar quando parar de cair. O remédio acredita em mim?

Entendeu? O stress nasceu para glamourizar as terapias medicinais. E, de uma forma ou de outra, garantir que nunca acabem. Porque ninguém, nem eu, nem um pescador de Paraty, deixaremos de ficar putos com uma coisa ou outra. Se alguém não tem motivo para se preocupar, pronto, talvez esse mesmo seja um.

Não sei se estou sendo radical. Até me simpatizo com as baias de massagens nas rodoviárias, shoppings e aeroportos. Nada contra maracujá, insenso, erva de cheiro. Só acho que, se existe meio de mensurar nervosismo, deveriam também medir a felicidade. Porque quanto maior o trânsito, maior o prazer de voltar para casa. Os estudiosos chegariam então a conclusão de que o espírito de todo mundo estava bem equilibrado, e que a epidemia era de uma aguda e rara hipocondria. Ah..uma caixa de Stress Free com trinta comprimidos sairia, nas farmácias e drogarias de todo o país, apenas quatro reais e noventa e nove centavos.

21.2.07

Jose Saramago

Sozinho


Mexo o pé direito pra lá e pra cá e vejo que já fiz um buraco fundo na areia. Todos estão dentro da casa, esperando a pizza chegar. Baixou o sol completamente e só um nimbo laranja lembra que já foi dia. Um casal decide parar de jogar a bola com a raquete depois da mulher já não conseguir acertar. “Está muito escuro, amor.” – ela diz -, e os dois seguem para a casa vizinha à nossa, lavam os pés na torneira ao lado do portão e entram abraçados.


O mar é uma enorme massa prateada que fica sozinha comigo, bradando sobre o amor e a solidão sem chegar à conclusão do que é melhor. Escuto passos rápidos na areia, a fricção dos pés e dos tecidos da saia...

- Vamos comer?

- Já chegou?

- Já. Tem Marguerita e Muzzarela.

- Hum...estou indo já, já.

E ela senta devagar na areia comigo.

- Lindo, não é? Só de pensar que amanhã a gente vai ter que trabalhar. O que você sente?

- Como assim?

- Aqui na praia. Eu me sinto diferente.

- Não sei. Sabe quando a música muda seu humor quase que na mesma hora que começa? E sempre tem aquela que te faz acordar, relaxar, pensar em alguém? Aqui parece não precisar de música. É como se ela fosse tocando, abaixando o volume pra dormir e tudo.

- Ah é? E o que está tocando agora?

- Agora? Praia, vento, você aí toda arrumada, acho que John Mayer.

John Mayer é um cara que faz o tipo de música que mulher adora e que não é ruim, definitivamente enquadrada no grupo das que colocam para se pensar ou dar um primeiro beijo em alguém. E ela tinha vindo mais pra acabar com o joguinho que fizemos esses dois dias do que pra me avisar da pizza. Então ela ri quando a elogio, ri quando falo que o Victoria Secrets dela deve ser importado porque eu não conhecia fruta com aquele cheiro e depois olhamos pro mar. Ele continua mal humorado, agora implicando comigo por não pegar logo na mão dela e roubar um beijo.

Eu finjo que não escuto, mas é também o que eu estou pensando então olho pra ela com insistência até que ela perceber e sorrimos juntos e encosto de leve na mão dela que segura a minha e ela entorta o rosto e vem chegando até que o mar fervilha em espumas de alívio, e nos beijamos com a água quase alcançando-nos os pés.

- E agora, o que está tocando?

- Não sei. Apertei pause.

- Por quê?

Chamam a gente de casa. Lá dentro quase todo mundo bebe cerveja no quintal com os pés emergidos na água turva da piscina. E claro que já tinham ensaiado alguma piadinha. Alguém solta um “aêêê” lá de dentro, as meninas também arriscam um ou outro gritinho e ela fica vermelha.

Não sei quem resolveu ir só segunda cedo. A sala tem cinco cabides encapados com ternos dentro que me fazem pensar que os amigos dela devem trabalhar na bolsa ou em um escritório de advocacia. Vai ficando escuro e frio, e os casais são os primeiros a desejar boa noite e ir dormir. Deixam uma rede vazia e eu sento lá com ela. Depois de todos já terem ido, ela acha uma manta e ficamos deitados olhando o mar e discutindo o que iríamos fazer se ganhássemos na mega-sena. Mulher sempre diz que “vai ajudar as pessoas”, mas essa tem planos tão embasados e estratégicos de altruísmo que tenho que inventar qualquer coisa sobre abrir uma biblioteca com o nome de minha avó.

Depois vem o silêncio. Ela sente-se feliz imitando os gestos carinhosos que a atriz usa no galã do filme que mais gosta, pensa se o que acontece agora é elegível a pauta de algum jantar de amigas, se conhece alguém que me conhece para bisbilhotar meu passado e convencer-se apaixonada, ou decepcionada. Eu gasto o silêncio pensando nisso.

E, no alto da noite úmida e pouco iluminada, gosto dos ladrilhos de cores diferentes no banheiro, das tábuas que fazem barulho quando sobem a escada para os quartos, das coisas que eu penso em falar, falo e ela gosta, a cor de seus olhos combinando com as mechas do cabelo. E me seguro para não dormir, já que sei, e o mar entende, que o que sinto é mais comoção de despedida que excitação de descoberta. E na mudez onde só escuta-se o bocejo de ondinhas fracas, desejo que meu silêncio e minha solidão sejam das músicas a mais inspiradora, e minha melhor companhia.

8.2.07



Dai-me dor

Pra convalescer


Saudade, pra tudo ser bom

Viagem, pra um dia voltar

Desastre, pra não querer morrer


Dai-me amor

Pra enjoar.

6.2.07

Rolo

Eu gosto de você. Porque te conheço há muito tempo, já nem segredo tem,
não tem jogo, não tem enrolação.

Se você for pro clube e não der tempo, já me avisa logo. Se eu não puder
ir, falo que não e depois a gente se liga e está tudo certo. Quem vê de
fora pode pensar que é blasezisse dos dois, mas não é, não.

Lembra aquele dia? Estava sem ligar há umas duas semanas e você me
atendeu toda natural. Não te pedi desculpas e você não reivindicou, nem
do jeito melindroso de quem coloca a felicidade num lugar só, nem de
jeito nenhum.

Gosto de você e de como seu perfume fica por uns dois dias, toda vez que
nos vemos. E o cheiro me traz lembrança sua, nos longos tempos que só
imaginamos a vida um do outro como deve estar. Essa semana mesmo estava
na rua, passou uma senhora com o seu perfume e encurtei o passo pra
pensar melhor em você - não troca de perfume, tá? Talvez eu te perca da
cabeça.

E o melhor disso que a gente vive é ele não estar catalogado e, por
isso, poder ser o que nós bem entendermos. Então um dia a gente é
namorado, outro irmão, amigo. Até de outras pessoas que conhecemos a
gente já conversou, mas disso eu não não gostei, não sei se você também.
Não é ciúme. Mas esse negócio de ir se entendendo, saber do estratagema
um do outro, isso só burocratiza o que a gente tem. No fim, isso que a
gente tem não é nada demais, assim como todas as coisas deviam ser e o
que fecilidade deveria significar. O total descompromisso.