17.11.09
24.8.09
Astronauta

Fechou mais uma vez a comporta 22, voltou para a sala central onde os
japoneses conversavam euforicamente e sentou na cadeira, largando o
corpo. Murmurou "ai Maria, que saudades", levantou-se, respondeu
reciprocamente ao sorriso de um dos parceiros intergaláticos e
recolheu-se na cabine privada.
A base era um aperto, o exercício era quase impraticável, apesar da
modorra ser motivo maior que a falta de espaço. Até da respiração eles
haviam sido instruídos a não abusar, e por todas as pesquisas também
andarem devagar devido a falta de verba de sabe-se lá que cluster,
sobrava muito tempo para divagações.
Heis as dele, penduradas na cortiça que a NASA aprovou pregar, ao lado de
sua beliche.
" Ainda não me descobri como dono ou desertor do planeta. Minha
posição pode muito bem ser interpretada das duas formas. Sinto
saudades, o que sugere que a segunda teoria seja a mais correta.
" Os japoneses, nas horas livres, jogam cartas e cantam. Não aprendi
sequer uma palavra em japonês enquanto estava aqui. Nos comunicamos em
ingles, e nessa lingua me disseram que cartas e músicas são seus
hobbies. Comecei a acreditar que existe muito mais de você no hobby
que no ofício. Eu sou a contemplação do mundo. Abro a comporta horas
seguidas para sublimar o momento em que pela janela espio o mundo.
Queria ter sido músico. Hoje é bem sabido por mim todas as
peculiaridades envolvendo físicas e engenharia mecânica. Acordes sei uns 4.”
"Maria não é perfeita. Sua falta por vezes é triste, mas não é
perfeita, bem como eu que saio do mundo só pra sentir falta dele.
Saudade é coisa perecível que quando vencida vira mera curiosidade.
Faz muito tempo, eu e ela viramos a curiosidade um do outro: "Como
andam as coisas por lá?" E a distância vai enchendo uma bolha
especulatória que parece aumentar e nunca explodir. Dentro dela o amor torna-se a coisa mais sublime, já que se ama a idéia e longe não existe o real para contra-balancear todas as doces expectativas.”
“Vejo o mundo pequeneninho da sala de refeições. É estranho mensurar tamanho e tempo vendo o mundo desse jeito. Tento imaginar meus conhecidos com maior perspicácia, e para isso não sei se “tiro a raiz”, divido ou multiplico. Quanta vida existe. Tenho medo de que em mim ela mingue, lá dentro. A solidão simplifica e endurece a vida. Me sinto bem, mas pouco falo com o resto da tripulação, minhas indagações andam a serem interpeladas por concisas certezas e isso me preocupa. Elas já duram muito e são poucas. As estrelas, pra mim, tornam-se aos poucos os pedregulhos que de fato são.”
“Considerando existir coisas vivas, e outras vivas dentro dessas, tenho as segundas como as mais grandiosas, e em mim atrofiam por já não terem treino periódico. Se pudesse ao menos adicionar o tato ao exercício de sua lembrança…”ah, Maria”…
“A idéia do infinito, especulada lá de baixo por casais de namorados aos suspiros, vira daqui de cima o fato mais enfadonho. Resta a mim imaginar a redoma do universo, uma janela do lado de fora e alguém ainda mais sozinho a me observar.”
“Torcer para que ainda sejam muitos os beijos da metafísica no ceticismo e que eu chegue perto, mas não volte mais à Terra. É de toda a gente, e de mim também, isso de ser mais completo na convalescença da doença que no gozo da completa saúde. Que eu chegue só perto”.
12.5.09
Mais Formigas que Cigarras

Se possuidor de coisas que gosta e for de seu intuito preservá-las e a elas agregar outras, é mister ignorá-las, mesmo que propositadamente.
A satifação deteriora o que com dinheiro se conseguiu comprar.
Por isso nunca param de estudar (administração, engenharia), de se relacionar da forma mais política com quem lhe for de interesse, pois aproveitar as tardes amenas do sítio e preservar amizades despretenciosas parece não ser monetariamente confortável.
Foque. Pense apenas no próximo sofá e no mais novo aliado que seu dinheiro irá conquistar, mas sabendo que seu legado não será a casa de campo e sim a responsabilidade de mantê-la, o medo de perdê-la, enfim.
Melhor fossem todos autores de um bom livro lucrativo. Assim poderiam encarar suas posses como mero acidente, e usufruí-las com a leveza de quem delas não precisa.
Mas isso é impossível, não é? Para o mundo ter graça, sempre haverá mais formigas que cigarras.
24/5/2005
17.12.08
Ser

Especular sobre os devaneios das outras pessoas sempre vai te fazer pequeno. Pensar, simples e involuntariamente, já esmaga muito do que você acredita, criando outras certezas que serão esmagadas um pouco depois. É difícil acreditar em alguma coisa que exponha o que você realmente é. É difícil, impossível, ser uma coisa só. Talvez por isso algumas pessoas falem pouco, valorizando o poder do silêncio. Talvez por isso algumas pessoas falem e riam tanto, mostrando a coragem que tem, ou que querem mostrar que tem, de ser...seja lá o que for.
Mentimos pra nós mesmos, muitas vezes, só para nos convencer de que somos tal coisa, de que nunca mudamos ou de que agora somos totalmente diferentes. A verdade é que a nossa existência depende essencialmente da existência dos outros. Nós somos tudo o que vimos, tudo do que gostamos, tudo o que fizemos e que normalmente não faríamos. Nós somos aquele calafrio que se sente por alguém com quem você nunca conversou e que nem faz seu tipo, aquela alegria que vem sem explicação, durante o dia mais sem graça, o envolvimento com as personagens de um livro. Ser é como amar, como ter esperança, essas coisas que não dão pra tocar e das quais a gente vive apanhando.
(Thiago Cunha)
16.7.08
Use Protetor
Estão dizendo em todo lugar sobre a importância do protetor solar. Existe até poesia em várias línguas com o título, por isso, quando for a praia, use. Se for correr sozinha bem cedo, enquanto todo mundo ainda está dormindo, escolha usar os tênis de molinhas que seu pai trouxe do duty free. Não me surpreenderá se você o esquecer na casa de alguma amiga, por isso, talvez mais importante que o protetor, seja correr na areia dura onde a água bate. Principalmente por estar descalça, que torce o pé mais fácil, e acima de tudo por ser mulher, que se assustaria ali naquele infinito, sozinha, e iria engolindo um choro triste até em casa onde todos ainda estariam dormindo, aumentando um pouco a dor.
Estenda sua toalha embaixo do guarda-sol, deixe o sal pinicar na pele enquanto passa o olho despretensiosamente no capítulo de um livro que parece não acabar. Não pense em nada, acompanhe um barquinho lento o máximo que puder, tente entender a conversa dos meninos construindo o castelo e peça um sorvete.
Mergulhe de novo no mar, saia da água dando aquela jogada de cabelo pra trás, que você insiste em dizer que é pra não atrapalhar a vista mas deve ter fundo glamouroso. Peça uma caipirinha (cuidado com o limão!) quando o sol estiver se pondo.
Em casa, entre na piscina. Coloque a música que mais gosta e aproveite a quentura das pedras da borda, que esperaram o dia inteiro por você e já estavam esfriando de tão sozinhas. Quando esquentar muito, role pra grama. Vai coçar, tome banho. Use os mais sofisticados produtos da nécessaire, se demore, sinta o quão sensíveis estão suas bochechas vermelhas. Passe creme.
A sala vai estar com cheiro de macarrão, o pessoal insiste em jogar truco até hoje, algumas meninas assistem a novela e dão risada. Se tiver dúvida na roupa ou no cabelo, saia e solto. Você fica linda de saia. Aquele colar branquinho que todo mundo tem também é chique, e em você parece ser bem mais sofisticado.
De madrugada, quando estiver dançando pra disfarçar na roda de amigas, cante. Olhe para quem te interessar, vai ser bom, você é tão bonita. Brinque entre as amigas com as abordagens sem cabimento dos homens bêbados. Beba duas cocas antes de ir embora, talvez sobre pra você dirigir.
Você vai voltar cansada, cheia de curtas histórias, você e todo mundo. Conte alguns segredos no quarto das meninas, converse com o “carinha” amigo do dono da casa e que acha que você dá mole, sendo que no fundo você só estava sendo legal. Pegue um copo d´água. Olhe por alguns minutos as espumas desaparecerem no breu do mar, a lâmpada da varanda cheia de bichinhos, volte pra cama e torça pro sonho ser bem diferente, daqueles de escrever no caderno e mostrar pro psicólogo.
(Thiago Cunha)
10.3.08
Alma
Sinto que se desgarra. Já toma próprio rumo, a procura de novo coração. Ao meu já não resta nada mais que bater, manter todo o resto sob controle, acordando e dormindo. Minha alma embrenhasse em mata fechada, folhas longilíneas com singelos florais brancos na ponta. Mundo desconhecido que eu perco a curiosidade de enfrentar. Ela diz que posso ir seguro, que já vem logo atrás, me acompanha. Mas mente. Ela começou a mentir pra mim, e eu já não me importo.
Frustrações reincidentes amansaram minhas expectativas, hoje muito bem supridas pela grade das TV’s abertas e pagas, colunistas, pelas saias curtas que estão voltando às vitrines, marcas de cerveja, condições de parcelamento, pílulas do dia seguinte, aparelhos eletrônicos em promoções relâmpago, livros de como entender a economia, como aproveitar a queda da bolsa da china, como economizar na vida conjugal, como arranjar uma conjugue.
Minha felicidade cabe nisso e projeta-se, a médio e longo prazo, em oportunidades não menos previsíveis. A alma convida-me a andar descalço na grama, a fazer visitas românticas a lugares esquecidos da cidade. Meu corpo pede para esperar. Não se pode gozar da felicidade assim, sem cautela, ele diz, e volta a concentrar-se na propaganda de margarina.
Felicidade, grama, cachorro correndo em volta da piscina.
Trabalho, dinheiro, grama, cachorro correndo em volta da piscina, trabalho, trabalho, felicid...
15.11.07
Raso
Se me olhares por dentro, cavoucar meu miolo, encontrará apenas a massa pragmática que me recheia. Não sou respeitado pelo o que, provavelmente, esteja escondendo. Sou o que vê, essa pessoa coadjuvante da sua, e o que não entender, te explico.
A profundidade do meu olhar é do tamanho de sua curiosidade, por isso poupe seu tempo. Não tenho mistério, sou incompetente pra isso. Transbordo-me e volto a encher perenemente o pires raso que minha alma é.
Sou feliz.
17.9.07
Você Chegou
O que te levou a aparecer assim, justo agora, finalmente, como se estivéssemos atrasados para nosso encontro na vida? Eu não sou ator. Só um dia fui saci numa peça cuidadosamente arranjada pela professora primária, experiência muda e envergonhada que me rendeu não mais que um beijo de minha mãe e risadinhas ácidas de minha irmã mais nova. Portanto, é com muita desconfiança que esquematizo aqui comigo uma certa indiferença, como se não fosse verdade o fato de minhas saídas noturnas já terem movimentado talvez milhares de reais, quitados à vista, mas ainda lembrados por um fígado bastante experiente em sua função. Como se o cigarro impregnado nas calças jeans e camisetas não tivesse fedido, e o cheiro também infiltrado minhas narinas, meus pensamentos amuados.
Essas poucas habilidades cênicas foram utilizadas algumas outras vezes, em tempos de sua falta e minha procura desesperançosa. Cheguei a brigar com você. Fechei os olhos, resolvi imaginar seu rosto, tão imaculado e instigante como agora se comprova, franjas, lábios inquietos, coradinha, e para ele disse os maiores impropérios. Onde, entre todas as coincidências do mundo, você estava? Fiquei muito triste e achei que algo devia estar errado por naquele ínterim já ter havido guerra, paz, terremoto, pela temperatura ter sido a maior dos últimos trinta anos, um nadador ganhar sete medalhas de ouro sozinho e nada de você aparecer. Olhei para o espelho, espremi a vista fixando-a num ponto e disse..."tchau".
Depois, claro, desculpei-me e logo voltei a fazer as coisas que deixavam a esperança mais honrosa. Exercícios semanais eram necessários, supunha. Frequentava a academia. Montava os pesos e repetia os movimentos com profunda concentração, afinal, não estava lá para fazer amizades, muito menos para me inteirar dos acontecimentos futebolísticos. Às vezes me surpreendia passando os olhos em anúncios de escola de dança. E se for dançarina, pensava, de pernas torneadas, e se gostar de MPB? Li a biografia do Caetano.
Já sabia fazer macarrão carbonara, já tinha trocado o som do carro e instalado trava automática. Andava saindo com uma ou outra mulher, todas sparrings de você, quando fui àquela festa. Festa de artista, como as pessoas que estavam lá todas diziam que eram, e eu de calça, camisa e cinto combinando com o sapato. Deve ser assim, não é? Sempre. Quando você menos espera. Porque a roupa para te encontrar estava lá em casa e eu não tinha passado perfume. Bom...mas você veio com os lábios inquietos, a franja e agora dizemos “te amo” um para o outro sem nenhuma precaução. Mesmo você não sabendo dançar e sendo intolerante a leite, não ligar para exercício e só conhecer “Leãozinho”. Mesmo assim.
Eu, que tenho um pouco de medo que acabe, às vezes seguro, seguro, e depois solto um “eu também” murcho achando que posso botar minhoca na sua cabeça. “Ela vai pensar que eu estou pensando que ela pensou”...enfim, essas coisas de quem ama mais do que o psicólogo aconselha. O importante é que você chegou.
10.7.07
Noite de Domingo
A noite é um monstro enorme, negro com a mandíbula distendida para abocanhar o mundo. Sua língua, extensões de cimento úmido, abraça já a todos e desemboca aqui, na frente de casa. Afasto de leve o pano da cortina. Pela frincha se vê os dois halos incandescentes, dois postes no fim da rua fazendo tilintar a viscosidade suja da manta de água ante a escuridão de uma infinidade de lâmpadas apagadas. Ele olha pra mim. Uma goteira incessante e irregular tira minha atenção, um segundo, sim, sete segundos, não. Como fosse muito velho ou criancinha, algo não me deixa largar o tecido por completo. Seguro com as pontas dos dedos uma das extremidades da cortina e checo mais algumas vezes a presença eterna da noite de domingo, aqueles olhos esbugalhados que me deixam muito triste, aquela desolação inefável para a qual telefonema e abraços não são de nenhuma utilidade.
Estão lá, ainda. A ponta da língua serpenteando meu bairro, enrolando-me como presa passiva e convencendo-me vencido.
17.4.07
Cigarra
Intumescia-se de bonitos pensamentos, todos que viriam a sair pela respiração, ao dormir, sem propagar um único som. O sincero desejo de um dia voar, voar até sumir, era um paradoxo entre a aura de aniversariante de festa surpresa que a envolvia.
A vida era mesmo uma chatice, e de perene havia somente a certeza de sua singularidade. Por onde passava apontavam suas asas, que por nunca terem sido abertas, eram apenas um grande par de vontade misteriosa.
Até o dia que a menina mais bonita, cigarra entre as formigas, desapareceu para que pudesse se encontrar. E realmente o fez, ensimesmada como era e, de tanto ficar sozinha, do nada ser tão grande para tudo onde olhava, a menina soltou a primeira palavra.
E o som da cigarra viajou com o vento, ecoado pela coincidência das brisas quentes e frias, pra virar poema e fazer chorar as formigas apaixonadas.
8.4.07
Quotes
Amor
"Devemos preservar o amor no comedimento de seu usufruto".
Amizade
"Que na cumplicidade do amor ou da amizade, tudo tenha de ser discutido e comprovado, para que existam, sempre, num abraço recíproco de alívio."
Gênios
"Não há mérito no grande feito. Seu responsável mal o percebeu, tamanha febre passional que o acomedia. E se antes já vivíamos, agora, somente com essa diferença, sobreviveremos."
Escolha
"Não me deixe escolha para que possa, cego, superar-me. Peço que o faça, antes que me consuma o estudo das possibilidades. E que também muitos dos pequenos arbítrios invadam meus dias, fundindo-se em relevância com as grandes decisões da vida, para que sua engrenagem trabalhe silenciosa."
Vontade
"A descoberta da vontade pode ser confundida, propositadamente ou não, com o consentimento de um fardo. "
21.2.07
Sozinho
Mexo o pé direito pra lá e pra cá e vejo que já fiz um buraco fundo na areia. Todos estão dentro da casa, esperando a pizza chegar. Baixou o sol completamente e só um nimbo laranja lembra que já foi dia. Um casal decide parar de jogar a bola com a raquete depois da mulher já não conseguir acertar. “Está muito escuro, amor.” – ela diz -, e os dois seguem para a casa vizinha à nossa, lavam os pés na torneira ao lado do portão e entram abraçados.
O mar é uma enorme massa prateada que fica sozinha comigo, bradando sobre o amor e a solidão sem chegar à conclusão do que é melhor. Escuto passos rápidos na areia, a fricção dos pés e dos tecidos da saia...
- Vamos comer?
- Já chegou?
- Já. Tem Marguerita e Muzzarela.
- Hum...estou indo já, já.
E ela senta devagar na areia comigo.
- Lindo, não é? Só de pensar que amanhã a gente vai ter que trabalhar. O que você sente?
- Como assim?
- Aqui na praia. Eu me sinto diferente.
- Não sei. Sabe quando a música muda seu humor quase que na mesma hora que começa? E sempre tem aquela que te faz acordar, relaxar, pensar em alguém? Aqui parece não precisar de música. É como se ela fosse tocando, abaixando o volume pra dormir e tudo.
- Ah é? E o que está tocando agora?
- Agora? Praia, vento, você aí toda arrumada, acho que John Mayer.
John Mayer é um cara que faz o tipo de música que mulher adora e que não é ruim, definitivamente enquadrada no grupo das que colocam para se pensar ou dar um primeiro beijo
Eu finjo que não escuto, mas é também o que eu estou pensando então olho pra ela com insistência até que ela perceber e sorrimos juntos e encosto de leve na mão dela que segura a minha e ela entorta o rosto e vem chegando até que o mar fervilha em espumas de alívio, e nos beijamos com a água quase alcançando-nos os pés.
- E agora, o que está tocando?
- Não sei. Apertei pause.
- Por quê?
Chamam a gente de casa. Lá dentro quase todo mundo bebe cerveja no quintal com os pés emergidos na água turva da piscina. E claro que já tinham ensaiado alguma piadinha. Alguém solta um “aêêê” lá de dentro, as meninas também arriscam um ou outro gritinho e ela fica vermelha.
Não sei quem resolveu ir só segunda cedo. A sala tem cinco cabides encapados com ternos dentro que me fazem pensar que os amigos dela devem trabalhar na bolsa ou em um escritório de advocacia. Vai ficando escuro e frio, e os casais são os primeiros a desejar boa noite e ir dormir. Deixam uma rede vazia e eu sento lá com ela. Depois de todos já terem ido, ela acha uma manta e ficamos deitados olhando o mar e discutindo o que iríamos fazer se ganhássemos na mega-sena. Mulher sempre diz que “vai ajudar as pessoas”, mas essa tem planos tão embasados e estratégicos de altruísmo que tenho que inventar qualquer coisa sobre abrir uma biblioteca com o nome de minha avó.
Depois vem o silêncio. Ela sente-se feliz imitando os gestos carinhosos que a atriz usa no galã do filme que mais gosta, pensa se o que acontece agora é elegível a pauta de algum jantar de amigas, se conhece alguém que me conhece para bisbilhotar meu passado e convencer-se apaixonada, ou decepcionada. Eu gasto o silêncio pensando nisso.
E, no alto da noite úmida e pouco iluminada, gosto dos ladrilhos de cores diferentes no banheiro, das tábuas que fazem barulho quando sobem a escada para os quartos, das coisas que eu penso em falar, falo e ela gosta, a cor de seus olhos combinando com as mechas do cabelo. E me seguro para não dormir, já que sei, e o mar entende, que o que sinto é mais comoção de despedida que excitação de descoberta. E na mudez onde só escuta-se o bocejo de ondinhas fracas, desejo que meu silêncio e minha solidão sejam das músicas a mais inspiradora, e minha melhor companhia.
6.2.07
Rolo
Eu gosto de você. Porque te conheço há muito tempo, já nem segredo tem,
não tem jogo, não tem enrolação.
Se você for pro clube e não der tempo, já me avisa logo. Se eu não puder
ir, falo que não e depois a gente se liga e está tudo certo. Quem vê de
fora pode pensar que é blasezisse dos dois, mas não é, não.
Lembra aquele dia? Estava sem ligar há umas duas semanas e você me
atendeu toda natural. Não te pedi desculpas e você não reivindicou, nem
do jeito melindroso de quem coloca a felicidade num lugar só, nem de
jeito nenhum.
Gosto de você e de como seu perfume fica por uns dois dias, toda vez que
nos vemos. E o cheiro me traz lembrança sua, nos longos tempos que só
imaginamos a vida um do outro como deve estar. Essa semana mesmo estava
na rua, passou uma senhora com o seu perfume e encurtei o passo pra
pensar melhor em você - não troca de perfume, tá? Talvez eu te perca da
cabeça.
E o melhor disso que a gente vive é ele não estar catalogado e, por
isso, poder ser o que nós bem entendermos. Então um dia a gente é
namorado, outro irmão, amigo. Até de outras pessoas que conhecemos a
gente já conversou, mas disso eu não não gostei, não sei se você também.
Não é ciúme. Mas esse negócio de ir se entendendo, saber do estratagema
um do outro, isso só burocratiza o que a gente tem. No fim, isso que a
gente tem não é nada demais, assim como todas as coisas deviam ser e o
que fecilidade deveria significar. O total descompromisso.
10.11.06
Kurik-Kurik
Vestida e ainda perfumada, sentou a frente do computador pra pesquisar sobre os dois. Ela, uma jovem corretora de imóveis e os dois, pássaros que pareciam papagaios, ou pelo menos era o que todos se contentavam em dizer quando os viam pra lá e pra cá, mas que ela teimava que não.
Acontecia que a casa onde passava as tardes não valia o preço que o proprietário pedia e do qual não abria mão. E não havia esfregada no chão, não havia explicação sobre o curso do sol na vista da janela da sala que adiantasse. A missão de vendê-la tinha sido lhe dada a título de merecimento pelo ótimo trabalho em um condomínio luxuoso de apartamentos, porém a fama de vendedora perspicaz, que antes lhe acompanhava abrindo portas e encurtando seus turnos, agora começava a adormecer com ela, sozinha na mesa improvisada no centro da sala fria.
E por isso, aturdida pelo questionamento de seus dotes, Julia nunca iria apenas chamá-los de papagaios. A casa não tinha banheira, nem a piscina cascata. Os azulejos eram tão antigos que já não se podia argumentar um charme remanescente por conta de nostalgia. Se ao menos fossem portugueses, mas não. As cortinas empoeiradas nem eram reconhecidas como tal, e de tanto a perguntarem sobre a necessidade de uma lona atrapalhando o sol, Julia um dia as removeu uma a uma, o que pra ela só fez ressaltar as marcas de massa corrida, resíduos da exposição de muitos quadros que ela imaginava terem sido tenebrosos.
Mas era nesta casa e em nenhuma outra que os dois pássaros verdes pousavam, ora na varanda do quarto de casal, ora em uma haste propositadamente mantida no jardim. Eles não falavam, mas via-se que com alguma dedicação o fariam. Resmungavam barulhos distintos que se repetiam e organizavam-se conforme o humor dos dois. Muito inquietos, talvez duas fêmeas maduras e invejosas, dois jovens se xingando perenemente, não se sabia.
Para a pesquisa, Julia munia-se apenas de sua intuição e da ciência absoluta do tom de suas penas, amarelas abaixo do bico e laranjas na cauda. Procurou pouco e já logo achou os dois, que muito diferentes do Papagaio Verdadeiro, dizia o site, tinham um canto de “kurik-kurik” e chamavam-se Papagios do Mangue. “O Papagaio do Mangue vive nas matas no litoral atlântico e chega aos manguezais. Pode ser encontrado na Colômbia, Venezuela e Guianas até o Paraná, oeste de S.Paulo e Rio de Janeiro.” Na argumentação que Julia já ensaiava, São Paulo foi vetado, e logo depois o Rio. Somente referências internacionais seriam dadas aos questionamentos sobre a procedência dos dois, o que aumentaria o mistério. “Não me pergunte o por quê, mas são lindos, não?..”, dizia ao espelho, sorrindo.
11.10.06
Segunda-Feira
O dia estava muito frio. Perdoaria quem nesse dia pulasse o banho e fosse direto ao trabalho, mas não sei se seria perdoado. O tempo era tão frio e a água tão quente, que mal a cheguei sentir, caía como centenas de curtas beliscadas num corpo que não era meu. Nem as pernas, estalagmites do concreto e do azulejo, eu sentia.
Acabado o banho enxuguei a cabeça, escolhi uma das combinações que faço sem criatividade entre a calça e a camisa e desci as escadas para a cozinha ampla onde o frio parecia habitar com mais vigor, talvez por tanto tempo vazia...os cachorros presos do lado de fora, latindo ainda sem muita vontade. Antes de acender a luz uma esperança residual da infância viu minha mãe atrapalhada entre pães e leites, chamando-me pelo diminutivo. Ela não estava lá. A lâmpada acendeu preguiçosa, segundos depois de eu já ter apertado o botão. Oscilou indecisa, apagou, voltou a piscar até encontrar-se numa estabilidade triste e amarela...meu sol de segunda-feira.
2.10.06
Caderno
Escrevo aqui no caderno o que queria que eu fosse. Quando acaba o assunto e nada vejo de interessante é quando nem fantasiando eu sou, quando estendo a fatídica condição de senhor grisalho até meus mais altos devaneios e nada resta além de, na tristeza desse constato, escrever sobre isso.
Guardo-me com o passar do elástico nas abas desse pequeno confessionário, e na gaveta ou bolso do jaleco fico descansando da vida que levo, meu corpo oco das coisas que no caderno deixei escritas, sempre.
26.6.06
Olhos
Eu e seus olhos conversamos muito. Ele com um azul profundo e eu a perguntar sobre coisas diversas, todas numa língua nova, muda, cheia de neologismos que nosso amor inventou.
Para falar com os olhos, tem de se atentar às suas particularidades. Quando fecham de leve é bom, pois acontece quando a boca abre e os aperta, num sorriso. Quando arregalam, aí é preciso ponderar. Pode ser uma surpresa agradável, um tremendo espanto ou, isso muito raro, um pedido pra que assopre o cisco.
Os seus fazem tudo isso com uma irregularidade que todos os olhos deviam ter. Eles apertam de leve, você logo acha que “tá bom”, “tá feliz”, mas logo deles cai lágrima e você fica sem entender. O que é bom, posto que não há nada mais enfadonho do que olho pragmático.
Outro dia mesmo me diziam coisas sobre você em troca de elogios que saiam da minha boca. Gostam-te tanto, apesar de dizerem que você é parte deles e não o contrário. Vangloriam-se pelas coisas bonitas que já filtraram e até hoje perambulam aí dentro, espiando às vezes pra fora através deles mesmos que, quando isso acontece, brilham.
E para preservar em você o sorriso e neles a cintilação, fazem descer as cortinas da pálpebra para o inapropriado e, abertos, focam bastante em borboleta, criança, filhote de cachorro... Confessaram-me ficarem sem graça na olhada que você dá pro espelho de corpo inteiro antes de entrar no “Box”, mas num acesso de pilantragem que não é normal nos olhos disseram que é lindo, uma coisa maravilhosa que os meus, em conversa particular deles, assumiram nunca terem visto em mulher alguma. Meus olhos também têm lá suas malandragens e me pintam como um bom rapaz para os seus.
Pelo respeito mútuo que existe entre eles, as manhas do meu castanho fazem calmo o teu azul, que sereno comprime-se em contentamento, deixando apenas uma brecha por onde escapa um ou outro segredo.
Lá Dentro
Sou, dentro do corpo em que me refugio, uma massa indiferente de ar. Estou atrás da boca que ri, do olho que chora. Sou o nulo desejo de qualquer coisa, ainda que meu corpo e o cérebro de meu corpo acordem, trabalhem, tenham lá os seus prazeres e durmam.
O jeito com que rio só repuxando o lábio superior direito, e que as pessoas ficam sem saber se é cinismo ou só meia risada, isso não sou eu. Estou lá dentro, assistindo-me sofrer, observando complacente como é inevitável a excitação da alegria.
Sou o que todo mundo tem, apesar da maioria não saber, coisa essa que não se explica por genética ou ambiente ao qual na vida foi exposto, tanto porque meu corpo, bem educado em intelecto e maneiras da alma, não consegue sentir a dor dos famintos da África e meia volta xinga motoboy pesadamente. Mas eu não sou isso.
Não sou meu gosto recente por Chico, nem com qualquer outra coisa posso afirmar que me identifico, porque eu, lá no fundo, sei o que faz a cabeça do meu corpo gostar disso ou daquilo, inevitavelmente.
Sei que uma mulher de saia terá grande vantagem aos olhos de meu corpo, e que se sua voz for rouca e os movimentos lentos, vai deixá-lo louco. Eu sei. Ele vai consultar a cabeça sobre suas chances, acreditar que terá alguma, dilatará a auto-estima o máximo que seu cérebro permitir para então esparramar frases de final de semana sobre ela, provavelmente não só uma mulher de saias que anda devagar.
A vantagem do meu corpo é a de, em instantes de particular abstração, sentir uma coisa que não pinica, não faz cócega e não dói, que sou eu. Sou como perguntas enrraigadas na aceitação das coisas, a indiferença que “reseta” o programa do meu corpo, pra que tudo pra ele seja um pouco novo, sem deixá-lo perceber extamente quando foi que desligou e voltou a funcionar.
Mulheres de saia ainda não foram reconhecidas por seu invólucro, ao menos a grande maioria, e nisso eu e meu corpo levamos vantagem.
9.5.06
Pra Parecer Sonho
Pra parecer sonho, em primeiro lugar, é bom que ande em lugares que não te agradam, entre pessoas que não conhece. Só com essa ferramenta, que eu assumo ser meio melodramática, é que o sonho sai "redondo".
Por exemplo, agora: frio lá fora, o parafuso solto do banco do ônibus martelando no pensamento, ajudado por um forró da pior qualidade. É agora que sonho (quando você dorme não escolhe, às vezes nem lembra).
Até eu chegar em casa, pelos vinte minutos que isso deve durar, vou comigo ilustrar uma casinha no alto da colina. Uma casa que passarinho canta de dia, cigarra de noite, cujo terreno preencho como se dela fosse um velho amigo.
O aluguel foi uma pechincha, e no ônibus eu rio sozinho por isso. A mulher que mais gosto está a caminho. Sempre achei que era do perfume dela que eu gostava, mas o cheiro bom vinha do pescoço, eternamente. Ela não tem rosto, está de busa e cachecol, com os cabelos soltos ao pouco vento que bate.
"Que linda!" - ela adora a casinha.
Concordo com um sorriso satisfeito e a convido pra sentar lá fora. Sentamos num banco de madeira, preso por correntes à uma estrutura que o permite balançar. Ela acha graça daquele "vai-e-vem" e um pouco mais tarde, depois dos passarinhos terem terminado e antes das cigarras começarem a cantar, nos beijamos num silêncio pacífico e frio.
De fora se escutam latidos de cachorros que, apesar de vira-latas, são muito bonitos e todos correm pela varanda tirando barulho da casa pré-fabricada. Ela é toda de madeira, e talvez por isso o próprio contrato aconselhava: "-Por favor, evitar entrar na casa calçado, especialmente na salinha de TV." Os proprietários devem ter lido várias revistas de decoração antes de projetarem a salinha, que tinha (claro) uma TV no canto, mais janelas que o resto da casa e várias almofadas de cores e tecidos diferentes. Eu que mando no sonho, por isso incluí nesse cômodo uma jarra de suco de abacaxi com hortelã e um pote de pipoca de panela que dividem um criado mudo com os controles remotos.
Assistimos ao filme. Talvez o "assistimos" passado também tivesse que estar entre parênteses, já que o filme em si ficava pouco interessante quando se olhava pro lado e via a mulher que você mais gostava. Eu, pelo menos, não prestei muita atenção, mas assistindo ao final entendi quase tudo. Era um filme de amor.
Com a TV já desligada, começo mais uma vez aquele cortejo de ir devagar, encostanto com o final dos dedos o começo do corpo dela, tudo aquilo que a gente pensa copiar do filme, sendo que no fundo ele é quem copia da gente (ele imita a gente, a gente ele, nada muda).
De repente, uma barulheira vem de fora, balançando as árvores e fazendo voar algumas corujas. Um carro em alta velocidade passa pela estrada, entra pelo portão e freia bruscamente ao lado da porta que dá pra varanda. Os cachorros saem raivosos, latem feito loucos mas são logo espantados pela senhora de cabelos loiros que sai do carro e já abre a porta da casa. Entra na salinha com dificuldade, com sapato e tudo, espalhando as almofadas e dizendo firme:
- Com licença, rapaz.
- Desculpe senhora, mas não me lembro de term...
- Meu filho, este lugar é pra idoso. Por favor.
Abro o olho.
Thiago Cunha



